terça-feira, 20 de novembro de 2007

Insônia

Três e trinta e cinco da manhã. Os quatro metros quadrados de teto com apenas uma lâmpada de mercúrio no centro parecem se precipitar em minha direção como num filme do Indiana Jones. Viro de um lado para o outro no pequeno colchão que me serve de leito, o pensamento neste momento é limpo - um insone não pensa em nada e pensa em tudo ao mesmo tempo.

A sinfonia prossegue na grande avenida que leva ao centro da cidade, motoqueiros cheios de adrenalina cortam a madrugada em alta velocidade e o ronco abafado dos motores sacode todo o apartamento. A canção fica ainda mais pertubadora auxiliada pela constante harmonia de 80 décibeis que sai das entranhas de meu companheiro de quarto. Sua respiração é pesada, a minha mente agora também é. O peso vem do sono.

O estalar dos chinelos no calcanhar agora enriquecem o programa, só me resta a companhia de um cigarro amigo de todas as horas. Estranho pensar que um ato suícida te dá tanto prazer - mas isso não vem ao caso. Da janela vejo a artéria ainda pulsando: o executivo pilantra volta pra sua esposa depois de gastar boa parte do presente de natal das crianças em um inferninho na Cardeal Arcoverde; a universitária bonita, classe média, cabelos encaracolados, toma a ultima anfetamina da noite e deseja que todos os seus sonhos de criança se realizem, e eu, eu clamo por um Diazepan, um baseado, ou uma martelada na cabeça.

Como numa transição de filme mudo a narrativa toma outro rumo. Já são mais de quatro, o silêncio agora é ainda mais aterrorizante que a anarquia sonora de antes. Com ele vem estranhamente uma culpa suplantada que não consigo identificar num primeiro momento mas que depois vem a tona transformando a noite em dia, o dia em pena, a pena em martírio.

3 comentários:

Flavinha disse...

Acho que o maior terror para o insone é tentar permanecer limpo em meio a todos os ruídos ensaiados pelo seu próprio pensamento.

É como um tumor, Você sabe que está lá, e quer arrancar, mas a mão não alcança. Quer não lembrar, mas saber que está lá não nos deixa ignorar.

O conforto é saber que até mesmo a noite amanhecida que virou dia tem hora para acabar. E o sono que sobrevém é profundo e repousante.

Beijos, Che.

Erika disse...

"Três e trinta e cinco da manhã. Os quatro metros quadrados de teto com apenas uma lâmpada de mercúrio no centro parecem se precipitar em minha direção como num filme do Indiana Jones. Viro de um lado para o outro no pequeno colchão que me serve de leito, o pensamento neste momento é limpo - um insone não pensa em nada."

Isso sou eu na minha casa, sem a lampada de mercurio...e com um colchão maior

Beijo

Ana D disse...

Insonia combato com um livro e chá de camomila...rs...Teu texto descreve com exatidão e muita arte as noites adentro..rs