quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Pra ti, por todos esses anos.

Ficou ali, contemplando-a inerte e maravilhosa. Velou aquele sono tempo suficiente pra fazer uma viagem ao passado, e recordando tudo que vivera até o momento não conseguiu encontrar nenhum registro sequer de tamanha altivez, graça e encanto. Pensou “como é bela, meu Deus” e fez as contas nos dedos como uma criança no jardim de infância. Poderia ficar ali o resto de sua vida. Ali, parado. Boquiaberto. Em cada contorno daquela face rosada estavam grandes historias de amor que deixaram feridas, grandes noites de prazer que deixaram lembranças e grandes alegrias esquecidas. Ainda assim aquele rosto lembrava um sonho lindo, talvez tão lindo quanto o que o sorriso singelo daquela mulher denunciava. Não ousou tocar-lhe a face, sentiu vontade, mas não o fez, ao invés disso preferiu seguir com os olhos os contornos do corpo estendido no leito e aspirar o cheiro quente que parecia carregar-lhe entre nuvens de algodão como nos desenhos animados. Desde o momento em que a viu pela primeira vez, sentada no ultimo banco do ônibus escolar ele a desejou, e todas as manhãs quando a via no mesmo banco a desejava, em sonho a desejava, acordado pensava em como iria possuí-la. Por todo tempo e em todos os momentos importantes de sua miserável vida se recordou do rosto de expressões doces, do longo pescoço elegante e libidinoso e do olhar, triste, cínico, encantador. Abanou o fósforo recém riscado e atirou-o com um peteleco pela janela, a luz azulada da noite e a fumaça preenchiam o quarto de hospedes onde ela então ressonava. Do lado de fora a noite continuava sua sinfonia, três, era o que marcava o menor ponteiro; três, em riste, formando um angulo de noventa graus com o maior - seu companheiro. Três eram também as décadas que o separavam de sua amada, três foram os casamentos anteriores, três os filhos e para não faltar assunto para os numerólogos eram também três as pontes de safena. Apertou a guimba contra o cinzeiro de cobre e não sossegou até certificar-se de que a brasa havia cessado. A fumaça esbranquiçada tapou-lhe a visão por um instante e logo rodopiou suavemente no ar até chegar ao teto.

Estacou. Fitou a mulher como uma hiena que observa os leões pronta pra fartar-se com os restos. Não sentiu mais nada, nada do que havia sentido durante todo o tempo em que esperou por aquela mulher e nem o que sentira quando apertou os braços contra os seios fartos de mulher madura, seios táteis, macias carnes espremidas brutalmente, naquele momento, pelas mãos do homem que mais os desejou. Aquela mulher, a louca dos tempos bons de sua vida, dançando com seu vestido azul cravejado de lantejoulas prateadas. A mulher dos brincos grandes de pérola, do penteado a lá Sofia Loren; cocoteando pela praça da matriz desencadeando uma revoada de pombos e inspirando os mais pervertidos garotos punheteiros de toda uma geração. A dama que um dia ilustrou sonhos travessos e que feriu sem saber os corações inocentes, A melindrada. A messalina. A santa. A impura. Aquilo o revoltava. O consumia. Ele que tudo tinha.

Nunca a teve, sempre a desejou e nunca a teve, todos a tiveram, se esbaldaram, lambuzaram-se em suas curvas, beberam em suas entranhas, fornicaram e gozaram se emaranhando em seus negros pelos pubianos.

Ao cortar-lhe a carne não sentiu remorso. Muito menos quando tocou os esbugalhados olhos definhantes e em cada jato jugular de sangue que se esvaía sonoro esvaía-se também a culpa, gotejante, pesada e gosmenta.
Puta. Cortesã! Pra ti o inferno que imaginei.

5 comentários:

Ana D disse...

Forte e envolvente...Dava um filme...

Camila disse...

Brutal!

Erika disse...

Uau, de desarmar a fala.

Beijo

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B. disse...

Que forte, que reviravolta... prende a gente até o fim. Parabéns.

Beijo meu.

Felipe Fiuza disse...

...instigante...